5 anos de Open Finance: o que avançou, o que ainda limita a adoção e como isso afeta o bolso do brasileiro
- Fincatch

- há 54 minutos
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Cinco anos após o lançamento do Open Finance no Brasil, que entrou em vigor em fevereiro de 2021, o sistema que promete ampliar a concorrência bancária, reduzir o custo do crédito e dar mais controle financeiro aos consumidores já alcançou números expressivos, mas ainda enfrenta um obstáculo central: a confiança do usuário. Embora 76% dos brasileiros conheçam a tecnologia, apenas 37% autorizam, de fato, o compartilhamento de seus dados financeiros.
É o que mostra o estudo inédito “Do PIX ao planejamento financeiro: como a tecnologia está mudando nossa relação com o dinheiro”, conduzido pela Lina Open X por meio da plataforma de consumer insights da MindMiners, com 1.000 respondentes brasileiros, em dezembro de 2025. Segundo a pesquisa, 76,8% dos entrevistados afirmam conhecer o Open Finance, porém, apenas 37,1% autorizaram o compartilhamento de dados. Mesmo assim, 75,2% gostariam de poder consolidar suas múltiplas contas em um único aplicativo.
O contraste ajuda a explicar por que, apesar da tecnologia robusta, o Open Finance ainda opera abaixo de seu potencial. Dados do dashboard do Open Finance Brasil indicam que o sistema acumulava, em novembro de 2025, cerca de 143 milhões de consentimentos ativos para compartilhamento de dados entre instituições participantes.
Para Murilo Rabusky, Diretor de Negócios da Lina Open X, o número cresce de forma consistente, mas ainda deixa de fora uma parcela relevante da população que desconhece a tecnologia ou nunca foi estimulada a compartilhar seus dados para obter algum benefício concreto.
“Estamos diante de uma tecnologia que funciona, é segura, está amplamente disponível e é frequentemente percebida como útil por quem já utilizou, mas que ainda depende de uma adoção mais estratégica por parte das instituições do mercado, que podem utilizar os dados compartilhados em benefício dos seus clientes, aumentando a percepção de valor e, consequentemente, a adesão”, avalia.
Mais de 1/3 dos brasileiros ainda faz controle manual de gastos
A pesquisa revela um descompasso que vai além do Open Finance e reflete a relação dos brasileiros com ferramentas financeiras digitais. Enquanto 71,8% afirmam que a tecnologia ajuda a melhorar a relação com o dinheiro, apenas 18,9% utilizam aplicativos de controle financeiro no dia a dia. A diferença de 52,8 pontos percentuais entre percepção positiva e uso efetivo evidencia uma lacuna comportamental.
Esse distanciamento aparece também nos hábitos de controle de gastos. Segundo o levantamento da Lina Open X, 31,6% dos brasileiros ainda registram despesas manualmente, em cadernos ou planilhas, e 16,1% não fazem nenhum tipo de controle financeiro. Na prática, ferramentas digitais amplamente disponíveis seguem subutilizadas.
“Esse gap mostra que o problema deixou de ser tecnológico. Hoje, a barreira é comportamental, ligada à conveniência e à forma como as pessoas entendem e utilizam as ferramentas de finanças pessoais”, afirma Rabusky.
Para 81% dos brasileiros, aplicativo é o principal canal de relacionamento com bancos
O estudo aponta ainda um baixo aproveitamento das funcionalidades de educação financeira oferecidas pelos próprios bancos. Embora 81% dos brasileiros afirmem que o aplicativo é o principal canal de relacionamento com a instituição financeira, apenas 23,1% seguem as orientações financeiras personalizadas recebidas por esse meio. Outros 25,7% recebem, mas raramente colocam em prática, e 13,1% simplesmente ignoram o conteúdo.
O descompasso ajuda a entender por que apenas 26% dos brasileiros conseguem poupar todos os meses e somente 12,8% se sentem totalmente preparados para lidar com imprevistos financeiros, como perda de renda ou despesas emergenciais.
“Os bancos e as fintechs avançaram muito em digitalização, mas grande parte desse esforço ainda não se traduz em mudança concreta de comportamento quando o assunto é educação financeira, controle de gastos e formação de poupança. Existe uma grande oportunidade para transformar os aplicativos bancários em ferramentas efetivas de educação e gestão financeira integrada à rotina das pessoas, desde que a usabilidade, o engajamento e a personalização sejam tratados como parte fundamental da estratégia de diferenciação e fidelização de clientes”, diz o especialista.
Impacto real para quem aderiu
Apesar dos inúmeros desafios, os cinco anos de Open Finance já trouxeram ganhos concretos para os usuários que autorizaram o compartilhamento de dados. Lançado pelo Banco Central em fevereiro de 2021, o sistema registrou crescimento de 44% no último ano e consolidou o Brasil como um dos principais mercados globais de finanças abertas, com cerca de 2,3 bilhões de requisições de dados bem-sucedidas por semana, segundo a Febraban.
O impacto mais visível está no crédito. Com acesso a um histórico financeiro mais amplo, instituições conseguem avaliar melhor o risco do cliente, o que tende a resultar em taxas menores para bons pagadores. A partir de fevereiro de 2026, a portabilidade de crédito via Open Finance deve reduzir o prazo do processo de cinco para três dias úteis, com acompanhamento digital em tempo real.
“Exemplificando, um financiamento de veículo contratado a 2,8% ao mês em 2022 pode hoje ser portado para uma taxa em torno de 1,9%. Em um saldo devedor de 30 mil reais, a economia pode ultrapassar 3 mil reais. No crédito pessoal, a redução da taxa pode representar até 40% no custo total do empréstimo”, explica Murilo.
Segurança técnica X segurança percebida
Do ponto de vista técnico, o Open Finance brasileiro opera com múltiplas camadas de proteção. O compartilhamento de dados ocorre apenas mediante consentimento explícito, segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), utiliza criptografia e é supervisionado pelo Banco Central. O usuário pode revogar autorizações a qualquer momento.
Ainda assim, a percepção de risco permanece elevada. Para 56,3% dos entrevistados na pesquisa da Lina Open X, segurança e medo de golpes são a principal preocupação em relação aos meios de pagamento digitais.
“A segurança no Open Finance é comparável, ou até superior, à de transações bancárias tradicionais, porque há padrões e protocolos internacionais, auditoria constante e transparência sobre o uso dos dados. O desafio é transformar essa segurança técnica em segurança percebida”, afirma o Diretor da Lina Open X.
Educação financeira segue como entrave estrutural
O estudo também aponta limitações que vão além da tecnologia. Quase 37% dos brasileiros afirmam nunca ter recebido qualquer tipo de orientação em educação financeira, enquanto 26% buscam conhecimento por conta própria. Entre os principais obstáculos para uma vida financeira mais equilibrada estão a falta de renda (27%) e a ausência de hábito e disciplina no planejamento e controle dos gastos (26%).
“É fundamental compreender que o Open Finance é uma ferramenta poderosa, mas que não resolve sozinha problemas estruturais. Ele pode facilitar o acesso a crédito mais barato e melhorar o controle financeiro, mas precisa caminhar junto com iniciativas efetivas de educação, prevenção ao superendividamento e incentivo à poupança, para ajudar cada vez mais a população brasileira”, avalia o especialista. Reconhecendo essa lacuna, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional publicaram a Resolução Conjunta nº 8, que passou a vigorar em julho de 2024 e regulamenta as medidas de educação financeira que devem ser adotadas por instituições financeiras e de pagamento.
A norma estabelece que as instituições devem implementar políticas voltadas para a organização do orçamento pessoal e familiar, formação de poupança e resiliência financeira, além da prevenção ao inadimplemento e ao superendividamento. Com essa regulamentação, o setor financeiro passa a ter responsabilidade formal na promoção da educação financeira de seus clientes, transformando o que antes era uma recomendação em uma obrigação regulatória com metas e indicadores de efetividade.
Open Finance: o que vem pela frente?
Para 2026, o avanço do PIX Automático, a ampliação da jornada sem redirecionamento e a inclusão de pequenas e médias empresas no sistema devem reforçar a percepção de valor do Open Finance. Hoje, menos de 10% dos consentimentos são de pessoas jurídicas, e a expectativa é facilitar o acesso a crédito para capital de giro.
Com mais de 900 instituições participantes, mais de 143 milhões de consentimentos ativos e investimentos bilionários, o Brasil se consolidou como líder global em Open Finance. Ainda assim, os dados indicam que uma parcela significativa dos benefícios permanece fora do alcance de milhões de brasileiros.
“Não se trata mais de construir infraestrutura ou esperar por regulação. Isso já foi feito. O desafio agora é mostrar, com exemplos concretos, que o compartilhamento seguro de dados pode gerar economia real e melhorar a saúde financeira dos brasileiros”, ressalta Murilo Rabusky.
Cinco anos após sua criação, o Open Finance brasileiro avançou de forma consistente em tecnologia e escala. O próximo passo, no entanto, depende menos de sistemas e mais de casos de uso concretos e estratégias de negócios consistentes, para que a promessa de um sistema financeiro mais eficiente chegue, de fato, ao bolso do consumidor.




















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