IA, Pix e nova regulamentação elevam exigências de infraestrutura no sistema financeiro

A transformação digital do setor financeiro entrou em uma nova fase. Depois da migração acelerada para ambientes em nuvem e da consolidação de iniciativas como Pix e Open Finance, bancos e fintechs agora enfrentam um desafio menos visível, mas igualmente crítico: garantir que toda essa infraestrutura permaneça resiliente, segura e em conformidade com regulações cada vez mais rigorosas.
O alerta ganhou dimensão global com a entrada em vigor do Digital Operational Resilience Act (DORA), legislação da União Europeia que estabelece novas exigências para a continuidade operacional das instituições financeiras. Embora tenha alcance europeu, seus efeitos ultrapassam as fronteiras do bloco ao impactar instituições brasileiras que mantêm operações, clientes, fornecedores ou presença regulatória na União Europeia.
Um levantamento recente da Deloitte mostra que a adaptação ao DORA ainda representa um desafio para grande parte das instituições financeiras europeias. Apenas 7% das organizações entrevistadas afirmam já ter alcançado conformidade total com a regulamentação, enquanto a maioria espera concluir esse processo apenas entre 2026 e 2028. Os principais desafios estão na realização de testes de resiliência operacional e, principalmente, na gestão dos riscos relacionados a fornecedores de tecnologia e provedores de nuvem.
Para a DE-CIX, maior operadora de Internet Exchanges (IXs) do mundo, esse cenário reforça uma mudança estrutural na forma como o setor financeiro deve pensar sua infraestrutura digital. "A conformidade regulatória, a soberania digital e a resiliência operacional deixaram de ser apenas temas de software, políticas internas ou contratos. Hoje, elas dependem diretamente da arquitetura de conectividade utilizada pelas instituições financeiras", explica Darwin da Costa, diretor regional da DE-CIX para o Brasil e América do Sul.
O ponto cego da infraestruturaO estudo sobre o DORA mostra que, embora 62% das instituições já consigam identificar suas funções críticas de negócio, poucas conseguem garantir a proteção completa dessas operações. A maior vulnerabilidade está na cadeia de fornecedores tecnológicos. Nenhuma das entrevistadas declarou possuir visibilidade total sobre seus parceiros, enquanto 39% ainda não desenvolveram estratégias para substituir provedores críticos de nuvem em caso de indisponibilidade.
Esse desafio também dialoga diretamente com o cenário brasileiro. As normas brasileiras de cibersegurança para as instituições financeiras (Resolução CMN n.º 4.893) e as regras relativas à subcontratação de serviços em cloud emitidas pelo Banco Central do Brasil (Resolução BCB n.º 85) reforçam a necessidade de controles rigorosos em matéria de cibersegurança, continuidade operacional e gestão do risco associado a terceiros, particularmente em ambientes de computação em cloud.
Internet pública já não atende às novas exigências
“À medida que Pix, Open Finance e aplicações baseadas em Inteligência Artificial aumentam a dependência de conectividade em tempo real, instituições financeiras vêm ampliando o uso de interconexão privada para reduzir a dependência de rotas públicas e aumentar a previsibilidade operacional”, analisa o executivo. “Isso ocorre porque o tráfego pela internet pública pode percorrer rotas dinâmicas e pouco previsíveis, dificultando garantir níveis consistentes de disponibilidade, latência e controle sobre o caminho dos dados, fatores cada vez mais relevantes para aplicações críticas e para a conformidade regulatória”, completa.
Plataformas de interconexão privada permitem conexões diretas entre bancos, fintechs, provedores de nuvem e parceiros do ecossistema financeiro. Isso proporciona maior previsibilidade de tráfego, menor latência e redução da superfície de ataque.
Mais do que ganhos de desempenho, esse modelo oferece maior controle sobre os fluxos de dados e fortalece estratégias de continuidade. "O DORA estabelece um novo patamar para a resiliência operacional no sistema financeiro. Somado às exigências do Banco Central, ele mostra que depender exclusivamente da internet pública para conectar aplicações críticas, provedores de nuvem e parceiros de Open Finance já não atende às demandas de segurança, disponibilidade e conformidade. A conectividade passa a fazer parte da estratégia de gestão de riscos das instituições financeiras.", diz Darwin da Costa.
IA amplia necessidade de conectividade resiliente
O avanço da Inteligência Artificial no mercado financeiro acelera ainda mais essa demanda. Aplicações voltadas para prevenção de fraudes, análise de crédito, detecção de riscos em tempo real e automação de processos exigem acesso simultâneo a diferentes provedores de nuvem e grandes volumes de dados, tornando arquiteturas multicloud uma necessidade operacional.
Nesse contexto, a conectividade deixa de ser apenas um componente técnico e passa a exercer papel estratégico na redução dos riscos de concentração tecnológica e na garantia da continuidade dos serviços.
Segurança começa na infraestrutura
Enquanto operador global de infraestruturas digitais críticas, a DE-CIX assenta a sua arquitetura em princípios de redundância geográfica, eliminando pontos únicos de falha e cumprindo normas internacionais como a ISO 27001.
A resiliência de um Internet Exchange depende de todas as camadas da infraestrutura subjacente, desde os percursos de fibra óptica e o acesso aos centros de dados até às plataformas de comutação e aos processos operacionais. Estes elementos são concebidos com redundância, diversificação e rigorosos controles de segurança, sendo monitorizados continuamente por um Centro de Operações de Rede (Network Operations Center – NOC) disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, e por uma equipa dedicada à segurança da informação. Em conjunto, estas medidas contribuem para reforçar a estabilidade e a resiliência do ecossistema digital de que as instituições financeiras dependem para prestar os seus serviços.
À medida que IA, Open Finance e pagamentos instantâneos se consolidam como pilares da transformação digital do sistema financeiro, a infraestrutura de conectividade tende a assumir um papel semelhante ao da energia elétrica: invisível quando funciona, mas absolutamente crítica para a continuidade dos negócios e o crescimento econômico.
“Por exemplo, a porcentagem do valor dos pagamentos processados por meio do Pix aumentou de 22,1% no início de 2023 para 41,2% em setembro de 2025. A previsão é que a plataforma represente mais de metade de todas as transações de comércio eletrônico até 2028, ultrapassando, inclusive, os cartões de crédito”, conclui Darwin.





















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