Inovação financeira e regulação: por que ambas são convergentes em fintechs reguladas
- Fincatch

- há 4 dias
- 4 min de leitura

Historicamente, tenho ouvido de alguns clientes fintechs (assim como outras instituições reguladas) que regulação e inovação são forças opostas.
De um lado, estaria a regulação — lenta, burocrática, cheia de exigências, e do outro, a inovação — rápida, disruptiva, focada em resolver problemas reais do mercado.
Essa dicotomia, no entanto, não resiste à própria realidade histórica do mercado financeiro.
As fintechs que temos como clientes, que crescem de maneira sustentável e perene, não são as que ignoram o Bacen. São as que usam a regulação como base para inovar com segurança e escala.
No livro The Sharp Fintech (https://www.thesharpfintech.com/livro-the-sharp-fintech/), mostro que regulação não é o freio que muitos imaginam. É, na verdade, o que permite que a inovação seja sustentável, confiável e, principalmente, aceita pelo mercado.
Este artigo explica por quê.
Inovação sem estrutura é apenas experimento
Muita gente confunde inovação com liberdade total, mas no mercado financeiro, inovação sem estrutura regulatória é como construir um prédio sem alicerce. Pode até ficar de pé por algum tempo, mas basta uma tempestade para desabar. O histórico do mercado financeiro mundial é cheio de exemplos de verdadeiras catástrofes (para investidores, clientes, governos), onde ocorreram crescimentos vertiginosos seguidos de quebras, com importantes prejuízos a muita gente.
O mercado de fintechs no Brasil, desde o novo marco regulatório dos meios de pagamento em 2013, já viu o suficiente para saber a diferença entre:
● Inovações que funcionam porque foram testadas e controladas
● Inovações que parecem boas no papel, mas geram riscos operacionais, fraudes ou perdas de clientes
A própria questão do Pix, com acesso indireto de instituições de pagamento não autorizadas, acabou por levar o Bacen a rever os limites de capital e datas-limites de autorização desses players. A imprensa está recheada de notícias graves.
Importante reforçar que fintechs reguladas não inovam menos, mas elas inovam melhor, porque constroem seu modelo de negócio de maneira viável, segura e alinhada com as normas do Bacen. E as normas do Bacen (assim com as do Conselho Monetário Nacional) não são invenções de burocratas, que não entendem de negócio, mas fruto de anos de experiência internacional, consagradas e adaptadas no Brasil.
Regulação cria confiança — e confiança atrai capital e clientes
Inovação sozinha não fecha contratos, até porque investidores e parceiros estão muito mais seletivos e atentos hoje em dia. Ou seja, a confiança em uma operação sadia e bem calcada nas melhores práticas de gestão de instituições reguladas ajuda a fechar os contratos.
Quando uma fintech é regulada, e com isso cria um ambiente seguro e saudável, ela transmite um sinal claro ao mercado: “nossa operação foi validada por uma autoridade independente”.
Esse sinal tem valor real. Ele reduz o tempo de due diligence, diminui objeções em vendas B2B e facilita parcerias com instituições tradicionais.
No treinamento em fintechs da The Sharp Fintech (https://www.thesharpfintech.com/tsfc-treinamento/), mostro que fintechs reguladas e bem geridas conseguem acessar rodadas de investimento mais qualificadas e clientes corporativos que, de outra forma, nunca considerariam uma operação amadora.
A regulação, nesse sentido, funciona como um certificado de qualidade que o mercado reconhece e valoriza.
Um exemplo bastante recente disso é a exigência que o Bacen faz a pleiteantes a entrar no segmento de prestação de serviços de ativos virtuais (PSAV). De acordo com a Res. BCB 520/25, tanto a instituição autorizada elegível não atuante, quanto a já atuante, no mercado de ativos virtuais, somente poderão iniciar essas atividades, dentre outras coisas, sujeitas ao resultado de certificação técnica elaborada por entidade qualificada.
O escopo de itens a serem levados em consideração por entidade qualificada independente é extenso, dentre eles segregação de funções na instituição, serviços relevantes contratados, plano de recuperação de desastres, políticas e procedimentos internos, processos e procedimentos relativos a PLD/FTP e segurança, a resiliência e o adequado funcionamento do ambiente computacional, mecanismos de monitoramento contínuo de segurança institucional e de avaliação de riscos, sistemas de controles internos, estruturas de gerenciamento de risco e de capital, conformidade e de auditoria interna, etc.
Estrutura regulatória permite inovação em escala
Uma das maiores vantagens de operar dentro das normas do Bacen e seguindo as melhores práticas, é a possibilidade de escalar sem precisar reinventar a roda a cada novo produto ou mercado.
Quando a instituição já possui:
● Governança ativa
● Modelo de risco integrado
● Processos de compliance e PLD/FTP maduros
● Gestão de continuidade de negócios
Ela consegue lançar novos produtos de maneira muito mais eficiente (e “pé no chão”) do que uma operação com foco exclusivo no comercial.
A regulação cria uma base operacional que suporta crescimento, e sem essa base, cada nova ideia exige um esforço desproporcional de estruturação — e isso atrasa a inovação de verdade, sem falar nas inovações que têm que ser interrompidas, por falta de sustentação.
O Bacen e o Conselho Monetário Nacional não impedem inovação — eles direcionam
Uma crítica que ouvimos muitas vezes é que o regulador “engessa” o mercado.
Na prática, o que observamos é o contrário, e não apenas no Brasil. O Bacen tem sinalizado claramente que inovação é bem-vinda, desde que venha acompanhada de responsabilidade. Regulamentações sobre Pix, Open Finance, BaaS, meios de pagamento no SPB e PSAVs mostram que o regulador está aberto a novos modelos — desde que eles sejam seguros para o sistema financeiro como um todo.
As fintechs reguladas que entendem o desafio, investem em suas segundas linhas de defesa, e adotam uma governança robusta, conseguem participar ativamente dessa evolução.Elas têm voz, podem propor melhorias e, principalmente, têm autorização para operar esses novo produtos e serviços. Já as que ficam de fora, ou são “saídas”, por falta de estrutura, simplesmente não conseguem aproveitar as oportunidades.
Conclusão: regulação e inovação não competem — elas se complementam
A fintech que mais cresce no Brasil e no mudo, não é a que ignora o ambiente regulatório, mas é a que usa a regulação como alicerce para inovar com responsabilidade, confiança e escala.
Essa é uma das principais mensagens que desenvolvo no livro The Sharp Fintech e no treinamento TSFC.
Para aprofundar:
📘 Livro – The Sharp Fintech (2ª edição, 2026)https://www.thesharpfintech.com/livro-the-sharp-fintech/
🎓 TSFC – Curso de Fintechshttps://www.thesharpfintech.com/tsfc-treinamento/
Ambos foram criados para ajudar líderes e colaboradores de fintechs a entender que regulação e inovação podem — e devem — caminhar juntas.
---
Conteúdo produzido por Luciano Fantin




















Comentários