O QUE FICOU DO FEBRABAN TECH 2026 E O QUE VEM PELA FRENTE PARA AS FINTECHS?
- Regina Crespo

- há 3 horas
- 7 min de leitura

Por três dias, entre 24 e 26 de agosto, o Distrito Anhembi se transformou no palco que debateu o futuro do sistema financeiro brasileiro. O Febraban Tech 2026 reuniu 70 mil visitantes (incrível!), 627 palestrantes e 220 painéis, em sua maior edição. O tema oficial — “Agentes inteligentes, liderança humana” — já indicava a principal discussão do evento, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa e começou a entrar na operação dos bancos.
O evento mostrou ainda que a próxima transformação dos serviços financeiros não será apenas tecnológica. Ela vai mudar produtos, modelos de negócio e a própria relação entre bancos, fintechs e empresas.
Mas, olhando para o conjunto das discussões, o que mais chama atenção é que a IA não apareceu sozinha. Ela veio acompanhada de uma transformação mais ampla envolvendo dados, pagamentos, segurança, crédito, Open Finance, infraestrutura digital e novas formas de distribuição de produtos financeiros.
E talvez essa seja a principal conclusão do evento para as fintechs: as oportunidades que estão surgindo não estão necessariamente em criar novos bancos ou aplicativos financeiros, mas em resolver problemas que aparecem à medida que o sistema se torna mais digital, conectado e automatizado.
O TAMANHO DA OPORTUNIDADE
Ficou claro que existe dinheiro para financiar essa transformação. Os bancos brasileiros devem fazer investimento de R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, realizada em parceria com a Deloitte. O valor representa crescimento de 8% sobre 2025 e de 58% em cinco anos.
Cibersegurança aparece como prioridade para 100% das instituições pesquisadas, enquanto inteligência artificial generativa e computação em nuvem também estão entre os principais destinos dos investimentos. Ou seja, não se trata apenas de discurso sobre inovação, de fato existe um mercado bilionário sendo criado.
Para as fintechs, isso é particularmente relevante porque os grandes bancos não precisam necessariamente desenvolver internamente todas as soluções que vão utilizar. Há espaço para empresas e startups de tecnologia, dados, segurança, crédito, pagamentos e automação oferecem suas soluções.
A IA ESTÁ COMEÇANDO A FAZER ALÉM DE APENAS RESPONDER
A grande estrela do evento foi a inteligência artificial. Mas o que mudou em relação às edições anteriores é o papel atribuído a ela. Os bancos já utilizam IA para analisar documentos, detectar fraudes, recomendar produtos e atender clientes. Agora começam a experimentar sistemas capazes de executar tarefas.
É uma diferença importante porque um assistente que responde “qual é meu saldo?” é uma evolução do atendimento digital. Um sistema que recebe a instrução “pague esta conta”, verifica as condições e realiza a operação está em outro patamar.
A discussão sobre agentes de IA mostrou justamente esse movimento. O próprio conteúdo oficial do evento destacou que essas ferramentas estão ganhando autonomia, mas ainda dependem de governança, segurança e supervisão humana.
Na prática, isso cria uma nova indústria, pois será necessário saber quem autorizou o agente, o que ele pode fazer, quanto pode movimentar, quais informações pode consultar e como suas ações serão registradas.
A IA, portanto, pode gerar negócios não apenas para quem desenvolve inteligência artificial, mas também para quem oferece as ferramentas que permitem utilizá-la com segurança. Essa é uma oportunidade especialmente interessante para fintechs de tecnologia.
DADOS ESTÃO DEIXANDO DE SER MATÉRIA-PRIMA E VIRANDO PRODUTO
Outro tema que ganhou força foi o Open Finance. A discussão já parece ter passado da fase de explicar o que é compartilhamento de dados. O desafio agora é fazer com que esses dados produzam resultados para o consumidor e para as empresas.
Segundo levantamentos apresentadas no evento, o ecossistema já registra aproximadamente 40 bilhões de chamadas mensais. O tamanho do número impressiona, mas também evidencia o próximo desafio que é transformar essa enorme quantidade de informação em serviços úteis.
É aí que aparece uma oportunidade importante para fintechs. Dados financeiros podem melhorar decisões de crédito, ajudar na prevenção de inadimplência, permitir ofertas mais adequadas e facilitar a gestão financeira de pessoas e empresas.
O caminho mais interessante talvez não seja criar mais uma ferramenta para “ver todos os seus bancos em um só lugar”, mas usar os dados para resolver uma necessidade específica como, por exemplo, identificar automaticamente quando uma pequena empresa terá falta de caixa; encontrar uma opção de crédito mais adequada; organizar pagamentos; ou ajudar uma pessoa a renegociar dívidas.
O dado, sozinho, vale pouco. A capacidade de transformar o dado em uma decisão útil é que pode valer muito.
O PRÓXIMO CAMPO DE BATALHA DO CRÉDITO PODE ESTAR FORA DOS BANCOS
Essa combinação entre dados, IA e crédito apareceu de várias formas no evento.
Uma das mensagens mais importantes do Banco Central foi justamente a preocupação com o uso responsável do crédito e com o aumento do endividamento.
Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica permite analisar informações que antes não estavam disponíveis ou eram difíceis de utilizar. A Carbigdata, uma das vencedoras da competição que aconteceu na Arena Fintech é um bom exemplo.
A empresa utiliza informações sobre veículos para melhorar avaliações relacionadas a crédito, risco, fraude e recuperação de ativos. Sua proposta parte de uma ideia simples: uma fotografia cadastral não conta toda a história de um bem; seu comportamento no mundo real também pode ajudar a avaliar riscos.
O exemplo é importante porque mostra que a próxima geração de empresas de crédito tende a utilizar fontes de informação muito mais variadas para tomar decisões. A oportunidade está menos em “emprestar dinheiro” e mais em encontrar formas melhores de decidir para quem, quando e em que condições emprestar.
O PIX DEIXOU DE SER NOVIDADE PARA SER PLATAFORMA
Depois de quase seis anos de existência, o Pix também passou por uma mudança de papel. Já não faz sentido tratá-lo apenas como um novo meio de pagamento, ele se tornou parte da infraestrutura financeira brasileira.
A nova oportunidade está nos produtos construídos sobre ele. O Pix Automático é um dos exemplos. A modalidade vem ganhando usuários recebedores e pode abrir espaço para novos modelos de cobrança recorrente em serviços, educação, seguros, assinaturas e outras atividades.
Para as fintechs, isso significa que o espaço de inovação está migrando para os iniciadores e pagamento, gestão de recebimentos, conciliação, prevenção a fraudes, crédito e automação.
O PAGAMENTO PODE DESAPARECER DA EXPERIÊNCIA DO CLIENTE
Essa transformação fica ainda mais interessante quando combinada com a inteligência artificial. Se um agente puder pesquisar um produto, comparar preços e tomar uma decisão de compra em nome do consumidor, ele também precisará realizar o pagamento.
Isso significa que o ato de pagar pode deixar de ser uma etapa visível da jornada e passar a acontecer dentro do processo. É uma mudança que pode afetar profundamente bancos, bandeiras, adquirentes, fintechs e empresas de tecnologia.
A oportunidade estará em criar sistemas capazes de permitir que uma máquina faça uma transação de maneira segura e autorizada. Mais uma vez, surgem problemas que parecem pequenos, mas podem formar grandes mercados: identificação, autorização, limites, segurança, prevenção a fraudes e controle das operações feitas por agentes de IA.
SEGURANÇA VIROU PARTE DO NEGÓCIO
Não por acaso, cibersegurança foi apontada como prioridade por todas as instituições financeiras ouvidas na pesquisa da Febraban. Quanto mais dinheiro circula digitalmente, maior é o interesse dos criminosos. E a inteligência artificial torna o problema ainda mais sofisticado.
Fraudes podem ser automatizadas, mensagens podem parecer mais convincentes e imagens e vozes podem ser falsificadas. A consequência é que segurança deixa de ser apenas uma preocupação do departamento de tecnologia e passa a fazer parte do produto.
Para fintechs, isso representa um mercado em expansão para soluções de identificação, prevenção a fraudes, monitoramento de transações, proteção de dados e segurança de sistemas de IA.
E existe uma particularidade importante em cibersegurança, quanto mais automatizado o sistema financeiro, mais automatizada também precisará ser sua defesa.
QUANDO O BANCO PODE ESTAR ESCONDIDO DENTRO DO NEGÓCIO
Outra tendência que atravessou diferentes discussões foi o embedded finance, ou seja, a incorporação de serviços financeiros a empresas que originalmente não são bancos. O conceito é simples: uma plataforma de comércio pode oferecer crédito; um software de gestão pode oferecer conta e pagamentos; um marketplace pode oferecer serviços financeiros aos vendedores; um ERP pode incorporar cobrança e antecipação de recebíveis. O serviço financeiro passa a fazer parte da experiência que o cliente já utiliza.
Para as fintechs, isso cria uma oportunidade enorme, pois em vez de disputar diretamente o cliente com os bancos, elas podem fornecer a tecnologia e a infraestrutura para que outras empresas ofereçam serviços financeiros aos seus próprios clientes.
Isso pode transformar ERPs, marketplaces, plataformas de comércio e softwares de gestão em novos canais de distribuição para crédito, pagamentos, seguros e outros serviços financeiros.
A ARENA FINTECH MOSTROU ONDE AS STARTUPS ESTÃO ENCONTRANDO PROBLEMAS REAIS
Talvez uma das melhores formas de entender o futuro seja observar quais startups conseguiram chamar a atenção de bancos e investidores. Na Arena Fintech do Febraban Tech, 33 empresas se inscreveram e 12 chegaram à etapa final. As vencedoras foram Fintalk e Carbigdata.
A Fintalk atua em uma questão bastante concreta: ajudar instituições e empresas a lidar com o endividamento e a renegociação de dívidas. A Carbigdata, como vimos, trabalha com dados de veículos para melhorar decisões relacionadas a risco.
São negócios muito diferentes, mas existe algo em comum entre eles: ambos atacam problemas específicos e mensuráveis do mercado financeiro. Essa talvez seja uma das lições mais importantes para quem está criando uma fintech hoje. O mercado parece estar mais interessado em soluções capazes de reduzir custos, aumentar receitas, diminuir riscos ou melhorar decisões.
O QUE O FEBRABAN TECH DIZ SOBRE O FUTURO DOS SERVIÇOS FINANCEIROS E DAS FINTECHS
O mais interessante do evento talvez esteja justamente naquilo que não foi apresentado como novidade. Pix, Open Finance, cloud, IA e pagamentos digitais já fazem parte do sistema financeiro, o que está mudando é a maneira como essas tecnologias começam a se combinar.
IA + dados podem mudar o crédito.
Open Finance + IA podem criar novos serviços financeiros personalizados.
Pix + automação podem transformar cobrança e pagamentos recorrentes.
IA + pagamentos podem criar um novo modelo de comércio realizado por agentes.
Dados + crédito podem permitir decisões mais precisas sobre risco.
Tecnologia + empresas não financeiras podem levar serviços financeiros para dentro de outras jornadas.
IA + segurança será uma condição para que tudo isso funcione.
Talvez seja cedo para dizer que estamos diante de uma nova onda para fintechs, mas há sinais suficientes de que uma nova etapa está começando.
A primeira geração de fintechs ajudou a digitalizar os serviços financeiros. A próxima poderá fazer algo diferente como tornar os serviços financeiros praticamente invisíveis, mais inteligentes e presentes nos lugares onde as pessoas e as empresas já fazem negócios.
E, nesse cenário, as maiores oportunidades podem estar justamente nas startups que resolverem problemas que ainda nem percebemos que existem.
É esse movimento que estará no centro do Fintech View 2026, que acontece no dia 15 de outubro, em São Paulo, reunindo especialistas para discutir as transformações que estão redesenhando o mercado financeiro brasileiro. Mais informações em: www.fintechview.com.br




















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