top of page

Regulação acelera consolidação do mercado cripto e reduz número de corretoras no Brasil

há 10 minutos
5 min de leitura

O mercado brasileiro de criptoativos entrou em uma fase de consolidação. Depois de anos marcados pela multiplicação de corretoras e plataformas, o avanço da regulação começa a elevar a barreira de permanência no setor e a provocar uma reorganização dos participantes, com empresas encerrando atividades, abandonando operações de varejo ou revendo a estratégia para continuar oferecendo ativos digitais.


Somente nos últimos meses, uma sequência de nomes deixou ou anunciou a saída desse mercado. A Bitnuvem iniciou ainda em outubro de 2025 um processo gradual de encerramento, concluído em 2026. Em julho, a NovaDAX desativou todas as atividades de negociação em sua plataforma. Em agosto, foi a vez da Digitra.com anunciar que não apresentaria pedido de autorização para funcionar como prestadora de serviços de ativos virtuais e encerraria suas atividades de negociação e custódia no Brasil.


No início de setembro, a lista ganhou um dos casos mais representativos até agora. A Coinext anunciou o encerramento de sua operação de varejo depois de quase dez anos de atividade e mais de 420 mil clientes. A companhia informou que não atingiu o capital mínimo regulatório necessário para apresentar o pedido de autorização ao Banco Central e que, diante das exigências do novo cenário, não encontrou uma alternativa economicamente viável para a continuidade da corretora.


A sequência de saídas mostra uma mudança de fase para um setor que cresceu durante anos com barreiras relativamente menores à entrada. Agora, a capacidade de permanecer no mercado passa a depender não apenas de tecnologia, liquidez e número de clientes, mas também de capital, governança, compliance, auditoria, segurança e controles internos.


“A regulação está mudando a estrutura competitiva do mercado. Durante muito tempo, uma corretora precisava essencialmente ter boa tecnologia, liquidez e capacidade de conquistar clientes. Agora existe uma camada regulatória e de governança muito mais robusta, que exige investimento permanente e escala para ser sustentada”, afirma Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin.


O movimento tem uma consequência imediata para os consumidores. Clientes de plataformas que encerram as operações precisam decidir se convertem seus ativos em reais, transferem os criptoativos para uma carteira própria ou escolhem outra corretora para continuar investindo. No caso da Coinext, por exemplo, as negociações estarão disponíveis até 15 de outubro e os pedidos de saque de criptoativos poderão ser realizados até 20 de outubro. Depois disso, os ativos remanescentes poderão ser convertidos em reais dentro do processo de encerramento definido pela empresa.


Com diferentes plataformas deixando o mercado em um intervalo relativamente curto, a escolha de uma corretora também tende a mudar. Preço, variedade de ativos e facilidade de uso continuam importantes, mas capacidade financeira, histórico de operação, estrutura de compliance e preparação para o novo ambiente regulatório passam a ganhar peso na decisão do investidor.


“Em um mercado que está passando por uma seleção regulatória, o consumidor precisa olhar além da taxa ou da quantidade de moedas disponíveis. É importante entender quem está por trás da operação, há quanto tempo a empresa atua, quais estruturas de segurança e compliance mantém e, principalmente, como está se preparando para continuar funcionando dentro das novas regras”, afirma Almeida.


Segundo Almeida, o momento exige cautela também para não transformar o encerramento de algumas plataformas em uma percepção de fragilidade generalizada do setor. “O fato de algumas empresas decidirem sair não significa que o mercado cripto brasileiro esteja diminuindo. O que está acontecendo é uma seleção de modelos de negócio. Para o investidor, isso torna ainda mais importante escolher instituições que estejam construindo sua operação para o longo prazo e que tenham capacidade de atravessar essa nova etapa”, diz.


Regulação eleva custo de permanecer no mercado


Por trás da transformação está a entrada definitiva das prestadoras de serviços de ativos virtuais no perímetro regulatório do Banco Central. As novas regras estabelecem exigências relacionadas a autorização para funcionamento, capital mínimo, governança, segregação dos ativos dos clientes, controles internos, segurança cibernética, gerenciamento de riscos e prevenção à lavagem de dinheiro.


Os requisitos mínimos de capital podem variar de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, dependendo das atividades e dos riscos assumidos pela empresa. As prestadoras que já estavam em funcionamento precisam protocolar seus pedidos de autorização até 30 de outubro de 2026. Na prática, isso altera a economia de um mercado historicamente marcado pela presença de empresas de diferentes portes.


Para Almeida, esse movimento tende a reduzir a fragmentação do setor. “Quanto maior o custo fixo regulatório, mais importante se torna a escala. É natural que algumas empresas sejam incorporadas, outras deixem determinadas atividades e outras decidam encerrar. Isso já aconteceu em diferentes segmentos do sistema financeiro à medida que foram amadurecendo e tende a acontecer também com cripto”, afirma.


A consolidação, entretanto, pode produzir um segundo movimento. Empresas que decidirem não manter uma estrutura própria de ativos digitais não necessariamente precisarão abandonar o mercado. Bancos, fintechs e plataformas financeiras podem continuar oferecendo serviços relacionados a criptoativos utilizando a infraestrutura tecnológica e operacional de empresas especializadas.


É uma lógica semelhante à que ocorreu com o Banking as a Service, que permitiu a empresas oferecer produtos financeiros sem construir internamente toda a estrutura necessária para operá-los. No universo de ativos digitais, esse modelo começa a se desenvolver por meio do Crypto as a Service (CaaS). Nele, empresas podem integrar compra, venda, custódia e movimentação de criptoativos aos seus próprios ambientes utilizando a infraestrutura de outro participante.


“Existe uma diferença entre deixar de ter uma corretora própria e deixar de oferecer cripto. Uma empresa pode concluir que sustentar sozinha capital, tecnologia, segurança, auditoria e compliance não faz sentido para seu modelo de negócio, mas ainda ter uma base de clientes interessada em ativos digitais. Nesse caso, utilizar uma infraestrutura especializada passa a ser uma alternativa”, explica Almeida.


A reorganização pode mudar inclusive a forma como o setor compete. Na primeira etapa de desenvolvimento do mercado brasileiro, grande parte da disputa ocorreu entre corretoras buscando diretamente o investidor final. A nova fase tende a combinar um grupo menor de plataformas de varejo com empresas especializadas em fornecer infraestrutura, liquidez, custódia, tecnologia e compliance para terceiros.


Isso aproxima o universo cripto da própria arquitetura do sistema financeiro tradicional, no qual diferentes instituições participam dos bastidores de um produto que chega ao consumidor sob uma única interface. “A primeira fase do mercado foi de expansão e entrada de novos players. Agora entramos em uma etapa de seleção e consolidação. Provavelmente veremos menos empresas tentando fazer tudo sozinhas e mais especialização e compartilhamento de infraestrutura”, avalia Almeida.


Para o consumidor, a mudança tende a tornar a solidez operacional um critério cada vez mais relevante. Para as empresas, a decisão será entre assumir o custo de uma estrutura regulatória própria ou conectar-se a quem já dispõe dessa infraestrutura. “Não estamos necessariamente caminhando para um mercado com menos cripto. Estamos caminhando para um mercado com menos fragmentação. O acesso aos ativos digitais pode continuar crescendo, mas provavelmente estará concentrado em um número menor de empresas responsáveis pela infraestrutura que sustenta essas operações”, conclui Almeida.

Comentários


Post: Blog2_Post
boosterad_170724_startse3_160x600.png
WhatsApp Image 2024-08-30 at 15.05.39.jpeg
Banner 1 Fincatch - 900x100.png
  • TikTok
  • Spotify
  • Facebook
  • Instagram
  • LinkedIn
  • YouTube

©2026 por Fincatch. Orgulhosamente criado com Wix.com

FINCATCH - SOLUCOES DIGITAIS E INTELIGENCIA DE MERCADO LTDA

39.646.140/0001-77

bottom of page