Bancos digitais lideram crédito no Brasil, mas taxa de inadimplentes cresce mais rápido que base de clientes
- Fincatch
- há 23 minutos
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Os neobanks consolidaram sua posição como principal porta de entrada ao crédito no Brasil e lideram o atendimento exclusivo à maioria dos consumidores com cartão de crédito e empréstimo pessoal ativos no país. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado dessas operações vem acompanhado de uma forte alta da inadimplência, como exemplo, entre 2021 e 2025, o índice de inadimplentes em cartões de crédito cresceu 163,33%, enquanto a base de consumidores avançou 14,95%. “O estudo mostra como os bancos digitais passaram a ocupar um papel de alta relevância no acesso ao crédito no Brasil, especialmente entre consumidores que antes estavam fora do sistema financeiro. Ao mesmo tempo, os dados ajudam a entender mudanças no comportamento financeiro dos brasileiros e os desafios que esse novo cenário traz para o mercado de crédito”, afirma Silvio Santana, VP Comercial de Key Accounts da Equifax.
É o que mostra o estudo “Neobanks: a nova fonte de crédito 2026”, desenvolvido pela Equifax Boa Vista com base na análise de mais de 165 milhões de CPFs entre 2021 e 2025.
Segundo o levantamento, os bancos digitais passaram a atender de forma exclusiva 47,1% dos indivíduos com cartão de crédito ativo em 2025, avanço de 19,2 pontos percentuais em relação a 2021. No empréstimo pessoal, a participação chegou a 51,8%, crescimento de 33,8 pontos percentuais no mesmo período.
O estudo também mostra que os neobanks tiveram papel central na inclusão financeira de consumidores que ainda não tinham acesso ao crédito. Em 2025, 41,4% dos cartões emitidos por bancos digitais representaram o primeiro cartão de crédito dos consumidores, enquanto entre os bancos tradicionais esse percentual foi de 4,9%.
No empréstimo pessoal, 10,2% dos consumidores que receberam crédito pela primeira vez foram atendidos por neobanks, contra 9,9% nos bancos tradicionais.
“Os bancos digitais protagonizaram uma das maiores transformações do sistema financeiro brasileiro na última década. Levar crédito a milhões de pessoas que nunca tiveram acesso a um cartão ou empréstimo é um avanço inegável, e os dados mostram isso com clareza. O próximo passo é garantir que essa inclusão venha acompanhada de educação financeira e ferramentas que ajudem esse novo consumidor a usar o crédito de forma saudável”, afirma Eduardo Cavalheiro, Head de Marketing da Acordo Certo
Crédito digital acelera participação no mercado
Embora os bancos tradicionais ainda concentrem o maior saldo de crédito ativo, os neobanks registraram o ritmo mais acelerado de expansão nas operações de crédito.Entre 2021 e 2025, o saldo de crédito ativo por bancos digitais — considerando cartões de crédito e empréstimos pessoais — avançou mais de 360%. Nos bancos tradicionais, o crescimento foi de 35,7%.
Em 2021, os neobanks respondiam por apenas 11,8% do total de crédito ativo. Em 2025, passaram a representar 31,8% do mercado.
Apesar desse avanço, os bancos tradicionais ainda mantêm forte relação de confiança com os consumidores. Pesquisa de opinião realizada pela Acordo Certo mostra que 66,9% dos brasileiros acreditam que os bancos tradicionais são os mais preparados para uma crise econômica e 61,15% dos brasileiros consideram os bancos tradicionais sua principal instituição financeira, enquanto 71,5% afirmam que não trocariam um banco tradicional por um digital.
Entre os entrevistados dispostos a migrar, o principal fator apontado foi acesso ao maior volume de crédito, citado por 46,9%, seguido por juros menores, com 25,6%.
“O expressivo crescimento da participação dos neobanks na oferta de crédito à pessoa física eleva o grau de concorrência do mercado, ampliando a oferta e o poder de barganha dos consumidores. Ambos os efeitos contribuem para a redução da taxa de juros e ampliação dos prazos de financiamento, representando melhora das condições de crédito”, afirma Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
Segundo o economista, o crescimento ocorre em um cenário de manutenção da taxa Selic em patamares elevados por mais tempo do que o esperado, devido aos efeitos inflacionários da guerra no Oriente Médio. “Nesse contexto, a expansão do crédito viabilizada pelos neobanks ajuda, conjuntamente com os aumentos de renda e emprego, a minimizar a desaceleração da atividade econômica”, diz.
Inadimplência cresce acima da expansão da base de clientes
Se por um lado os bancos digitais passaram a liderar o atendimento de consumidores com crédito ativo, por outro também passaram a concentrar a maior parcela de inadimplentes no cartão de crédito. Em 2021, o índice de indivíduos inadimplentes em neobanks era de 7,71%. Em 2025, o percentual chegou a 20,31%. Em bancos tradicionais, era 14,57% e passou para 13,6%.
No fim de 2025, o saldo em atraso nos cartões emitidos por bancos digitais representava 11,16% do saldo total ativo, acima dos 5,77% registrados em 2021. Em 2025, o saldo em atraso de cartões emitidos por bancos tradicionais foi de 8,75% do saldo total deste grupo, era de 6,60%.
O cenário se repete no empréstimo pessoal. Entre 2021 e 2025, os neobanks ampliaram em 113% o volume de inadimplentes nessa modalidade. O índice de clientes inadimplentes passou de 6,55% para 13,93%.
Entre 2024 e 2025, o aumento da taxa de inadimplentes em empréstimo pessoal entre clientes de neobanks foi de 42%, enquanto o volume de clientes atendidos cresceu 32,7%.
Ao final de 2025, o saldo em atraso de empréstimo pessoal ativo por neobanks representava 10,3% do total ativo, ante 2,56% registrados em 2021. Nos bancos tradicionais, o saldo em atraso representava 2,66% do total ativo e passou a representar 3,5%.
“Os resultados mostram que os neobanks apresentam maior crescimento da inadimplência, tanto no cartão de crédito quanto nos empréstimos pessoais, na comparação com os bancos tradicionais”, afirma Gamboa.
Segundo o economista, parte desse movimento decorre da maior exposição ao risco, já que os bancos digitais passaram a atender a maioria dos consumidores com crédito ativo no país.
“Mas os resultados também sugerem necessidade de aprimoramento dos métodos de score de crédito por parte dos neobanks, que atualmente focam no comportamento dos clientes dentro da própria instituição. A avaliação de risco tende a exigir informações mais abrangentes sobre o relacionamento financeiro desses consumidores, incluindo dados utilizados pelos birôs de crédito, como a Equifax”, afirma.
Clientes de bancos digitais estão mais velhos
O levantamento também identificou o envelhecimento da população com crédito ativo nos neobanks.
No cartão de crédito, consumidores entre 36 e 50 anos passaram a representar a maior parcela dos usuários em 2025, após avanço de 7,3 pontos percentuais no período analisado.
Já os consumidores entre 51 e 70 anos registraram aumento de 6,3 pontos percentuais na participação entre usuários de cartão de crédito. Pessoas acima de 70 anos passaram a representar 1% do total.
No empréstimo pessoal, a maior parcela segue concentrada entre consumidores de 26 a 35 anos, mas houve crescimento relevante da participação de clientes entre 36 e 50 anos e também entre 51 e 70 anos.
A inadimplência acompanhou esse movimento. No empréstimo pessoal, consumidores entre 36 e 50 anos ampliaram em 15,1 pontos percentuais sua participação entre os inadimplentes entre 2021 e 2025.
“O envelhecimento da população com acesso ao crédito acompanha a própria transição demográfica brasileira”, afirma Gamboa. “Também pode ocorrer a prática de pessoas mais velhas emprestarem o nome para membros mais jovens da família que não têm acesso ao crédito”, acrescenta.
Consumidores de baixa renda ampliam acesso ao crédito
Os dados também mostram ampliação do acesso ao crédito entre consumidores de menor renda.
Entre 2021 e 2025, o percentual de pessoas com renda presumida de até um salário mínimo que receberam cartão de crédito saltou de 6% para cerca de 20,5%.
No empréstimo pessoal, esse grupo passou de quase 5% para mais de 14% dos indivíduos analisados no período.
Ao mesmo tempo, a inadimplência avançou em ritmo ainda mais acelerado entre consumidores de baixa renda.
No cartão de crédito, o percentual de inadimplentes deste grupo passou de cerca de 9,5% em 2021 para aproximadamente 33% em 2025.
No empréstimo pessoal, o índice subiu de pouco mais de 8% para 25%.
“Os resultados mostram que houve crescimento das concessões de empréstimo pessoal e cartão de crédito para o público de menor renda, o que pode ser considerado positivo, pois o acesso ao crédito passa a ser um fator de inclusão social”, afirma o economista.
“Por outro lado, consumidores de menor renda também são mais vulneráveis em relação à empregabilidade, o que aumenta o risco de inadimplência”, acrescenta.
Mercado exigirá modelos mais sofisticados de análise de risco
Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade da consolidação dos neobanks no mercado de crédito brasileiro.
“As perspectivas tendem a reproduzir o padrão observado pela pesquisa. Os neobanks deverão consolidar sua liderança como ofertantes de crédito, em um contexto de aumento contínuo das transações financeiras digitais”, afirma Gamboa.
Segundo o economista, o envelhecimento da população e o crescimento da participação de consumidores de menor renda devem impor desafios adicionais à avaliação de risco de crédito, exigindo modelos cada vez mais abrangentes e apoiados em tecnologia.
“Essa dinâmica deverá exigir modelos de avaliação capazes de integrar dados referentes a todas as transações financeiras e não financeiras dos tomadores de crédito”, afirma.
Metodologia
O estudo foi desenvolvido pela equipe de Data & Analytics da Equifax BoaVista, com análise de mais de 165 milhões de CPFs ativos elegíveis à concessão de crédito entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025.
Os dados foram complementados por pesquisa de opinião realizada pela Acordo Certo entre 12 e 24 de março de 2026, com 2.296 usuários engajados da plataforma, com CPF ativo e cadastro em bancos tradicionais, bancos digitais ou ambos, distribuídos entre indivíduos com e sem dívidas, todos com perfil de relacionamento com crédito. As respostas foram coletadas de forma voluntária e anônima, via formulário digital.
Atendendo a convite da Equifax BoaVista, participou voluntariamente do estudo Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, na condição de economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
















