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Disputa dos pagamentos migra de taxa para controle da liquidação com avanço das stablecoins


A disputa nos meios de pagamento deixou de ser centrada em tecnologia e custo e passou a girar em torno de quem controla a liquidação, a custódia e o fluxo do dinheiro digital. Com o avanço das stablecoins como infraestrutura financeira, empresas, bancos e plataformas disputam agora o domínio sobre os trilhos que sustentam transferências, recebimentos e operações de tesouraria em diferentes países.


Dados da Visa indicam que o volume ajustado de transações com stablecoins atingiu US$ 10,2 trilhões nos últimos 12 meses, enquanto a oferta circulante global supera US$ 272 bilhões, o que sinaliza que esses ativos já operam em escala comparável à de sistemas tradicionais de pagamento.


Na América Latina, o movimento também ganhou dimensão relevante. Segundo relatório da Chainalysis, a região recebeu quase US$ 415 bilhões em criptoativos entre julho de 2023 e junho de 2024, impulsionada por remessas, comércio internacional e pela busca por maior eficiência financeira em economias marcadas por volatilidade.


No Brasil, o tema entrou definitivamente no radar das autoridades. Em entrevista à Reuters, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que cerca de 90% dos fluxos de cripto no país estão ligados a stablecoins, usadas principalmente para compras e pagamentos no exterior. Em novembro de 2025, o BC publicou um novo marco regulatório para ativos virtuais, em vigor desde fevereiro de 2026, que passou a enquadrar operações com stablecoins no sistema de câmbio e a exigir regras de governança e autorização para prestadores de serviços.


Esse conjunto de fatores, que inclui a escala global, o crescimento regional e o novo ambiente regulatório, vem deslocando o foco da competição no setor. A discussão deixou de ser sobre qual tecnologia é mais eficiente e passou a girar em torno de quem controla a liquidação e o relacionamento com usuários e empresas.


Apesar da expansão do uso de stablecoins, especialistas e estudos de organismos internacionais apontam desafios concretos para sua adoção ampla, como a integração de ativos tokenizados com sistemas contábeis e de liquidação existentes, a necessidade de educação financeira em mercados emergentes, incertezas regulatórias ainda em desenvolvimento em várias jurisdições e preocupações sobre a concentração de liquidez em poucos emissores dominantes, que podem gerar riscos operacionais e sistêmicos.


Bancos, processadoras e empresas de tecnologia também vêm testando iniciativas semelhantes, em resposta a esse cenário.


Entre as empresas que passaram a adotar esse modelo está a LiberPay, fintech norte-americana que escolheu o Brasil para a estreia global de um sistema de pagamentos P2P em stablecoins, com proposta de operação descentralizada e foco em autocustódia.

Para o cofundador da empresa, Tobias Kleitman, o país reúne condições específicas para o desenvolvimento desse tipo de infraestrutura. “Escolhemos o Brasil porque ele combina adoção digital, cultura de pagamentos instantâneos e um ambiente regulatório em consolidação. É um mercado onde dá para testar, na prática, como o dinheiro digital pode funcionar no dia a dia”, afirma.


Segundo ele, o centro da disputa deixou de ser a inovação técnica. “A infraestrutura já existe. O diferencial agora está em quem controla a liquidação e consegue integrar esse dinheiro ao comércio e às empresas sem criar novas camadas de dependência. É isso que define quem captura valor no sistema”, diz.


No modelo defendido pela empresa, os pagamentos ocorrem diretamente entre carteiras e estabelecimentos, por meio de gateways próprios, sem que a plataforma tenha acesso aos fundos. A proposta é reduzir intermediações e ampliar o controle dos usuários sobre seus recursos.


Para Nicolas Carreiro, country manager da LiberPay no Brasil, a mudança já começa a impactar a economia real. “O debate passou a ser sobre previsibilidade, liquidação rápida e menor dependência de intermediários. Quando isso entra na rotina das empresas, vira tema econômico, não tecnológico”, afirma.


Especialistas apontam que a centralidade da custódia e da liquidação ajuda a explicar o movimento de grandes instituições financeiras em direção ao setor. Bancos, processadoras e empresas de tecnologia passaram a testar soluções próprias baseadas em stablecoins e dinheiro tokenizado, numa tentativa de não perder relevância na nova arquitetura.


Com a consolidação do marco regulatório brasileiro e o crescimento do uso de stablecoins em escala global, a tendência é que essa disputa se intensifique nos próximos anos, redesenhando as relações entre bancos, plataformas, empresas e consumidores em torno do controle do dinheiro digital em circulação.

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