Split Payment no varejo: maquininhas assumem o controle fiscal com o avanço da reforma
- Fincatch

- 22 de abr.
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A reforma tributária brasileira ainda está em fase de regulamentação, mas seus efeitos já começam a se materializar no cotidiano do varejo.
Um dos impactos mais imediatos recai diretamente sobre o caixa, além de alterar a carga fiscal, a nova lógica tributária modifica os fluxos financeiros e impõe exigências tecnológicas inéditas à infraestrutura operacional das empresas.
Entre os mecanismos previstos na reforma está o chamado split payment, um modelo de recolhimento que altera a lógica tradicional de pagamento de tributos. Nesse sistema, a parcela correspondente aos impostos é automaticamente segregada no momento da transação e direcionada ao fisco, enquanto o valor líquido é repassado ao fornecedor.
Embora seja apenas um dos pontos da reforma, reforça a necessidade de integração direta entre meio de pagamento e documento fiscal. Outra mudança está na obrigatoriedade de vincular o código da transação financeira à nota fiscal emitida no exato momento da venda.
O desafio ganha dimensão quando se considera a realidade do varejo, com milhares de transações simultâneas, em múltiplos pontos de venda, canais digitais e marketplaces. Os números do Banco Central ajudam a dimensionar o ambiente em que essa transição ocorre. No primeiro semestre de 2025, o Sistema de Pagamentos Brasileiro registrou 72,5 bilhões de transações, movimentando R$ 59,7 trilhões. O Pix respondeu por 50,9% das operações, com 36,9 bilhões de transações. No comércio eletrônico, carteiras digitais avançaram cerca de 20% no período, alterando o mix de pagamentos.
Em estados como Goiás, Mato Grosso, Ceará e Rio Grande do Sul, a legislação já exige a vinculação automática entre o comprovante de pagamento eletrônico, seja cartão de débito, crédito ou Pix, a NF-e ou a NFC-e. Na prática, a regra estabelece um novo padrão operacional, e pagamento e documento fiscal precisam nascer integrados.
“Existe um fato novo no ambiente econômico. A transação financeira agora precisa conversar, em tempo real, com a emissão fiscal. Isso muda o desenho da operação e exige tecnologia embarcada no ponto de venda”, explica Emerson Barretto, CEO da POS CONTROLE, retailtech de soluções de pagamentos com mobilidade para o varejo.
E esse salto operacional e regulatório está acontecendo dentro da própria maquininha de cartão, equipamento antes limitado a processar transações e que começa a assumir funções típicas de um sistema de gestão. É ali, no hardware já instalado no balcão do varejo, que tecnologia, dados e conformidade fiscal passam a operar de forma integrada, no mesmo fluxo da venda.
A empresa desenvolve sistemas embarcados para terminais Smart POS (Point of Sale), integrando gestão, processamento de pagamentos e emissão fiscal no próprio dispositivo. A proposta é concentrar no equipamento já presente no varejo funções que antes dependiam de múltiplos sistemas e hardwares.
“O varejista trabalha com margens pressionadas e alto volume operacional. Qualquer inconsistência entre pagamento e nota fiscal gera retrabalho, risco de autuação e perda financeira. Mas, quando o fluxo nasce integrado, a eficiência aumenta e o risco diminui”, diz Barretto.
Além disso, a tecnologia é estruturada em modelo white label, permitindo que adquirentes, instituições financeiras, software houses e integradores ofereçam a solução sob sua própria marca, ampliando escala e capilaridade no mercado.
O modelo combina ERP, controle de estoque, emissão fiscal e meios de pagamento (débito, crédito e Pix) em um único terminal baseado em sistema Android. Essa estrutura embarcada reduz a necessidade de computadores adicionais em todo o varejo, sejam quiosques, restaurantes, eventos ou qualquer ramo do mercado, ao mesmo tempo em que simplifica a conciliação financeira. Na prática, torna mais ágil e automatizado o processo de verificar se as vendas realizadas, os pagamentos recebidos e os registros contábeis e fiscais estão devidamente alinhados.
Segundo o executivo, o eixo dessa arquitetura é o PDV embarcado na maquininha, que concentra gestão e emissão fiscal, e o Smart TEF, responsável pela integração inteligente entre diferentes adquirentes e meios de pagamento. “Todo mundo conhece a maquininha como um terminal de pagamento. O que fizemos foi trazer para dentro dela a inteligência de negócios. É um sistema de PDV e Pagamento Integrado completo embarcado no dispositivo”, complementa Emerson.
A arquitetura opera por meio de integração via APIs, permitindo conexão com PDVs, CRMs, ERPs, marketplaces e sistemas financeiros. Camadas de inteligência artificial são utilizadas para automatizar conciliações, identificar inconsistências em tempo real e aprimorar a análise de dados operacionais.
Para Alexandre Darzé, sócio da Lighthouse, gestora especializada em venture capital e principal investidora da POS Controle, trata-se de uma reconfiguração da própria infraestrutura do varejo. "Com as novas regras tributárias, a tecnologia passa a ser uma necessidade sistêmica. Assim, a tecnologia Smart TEF se posiciona como uma solução pioneira nesse novo modelo de integração entre pagamento e gestão, assumindo papel de liderança na transformação do terminal POS em uma plataforma estratégica para o varejo”.
Segundo Darzé, o princípio central da LightHouse é alocar capital em empresas que sustentam o funcionamento do mercado. “Ao entrar, fortalecemos governança, disciplina financeira e estratégia de escala, preparando o ativo para ciclos mais robustos de capital e consolidação”, completa Darzé.
E foi exatamente esse o movimento observado na POS CONTROLE onde a tecnologia passou a integrar o núcleo operacional do varejo, se consolidando como peça indispensável em um ambiente regulatório e competitivo cada vez mais exigente.
O relacionamento entre as empresas começou antes mesmo da estruturação via fundo. A LightHouse investiu inicialmente com capital próprio e, posteriormente, por meio do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) LH Tech Ventures, consolidando uma estratégia de crescimento estruturado.
Hoje, a gestora administra 4 veículos de investimentos, com mais de 20 startups investidas. O modelo combina capital, governança e acesso a mercado, com foco em escalabilidade e consolidação setorial.
“Não somos apenas um investidor financeiro. Atuamos na estruturação do crescimento, na profissionalização da gestão e na preparação das empresas para ciclos mais robustos de capital. Nosso papel é transformar boas soluções em plataformas escaláveis, prontas para consolidar mercado”, explica o sócio da LightHouse.
A robustez da solução foi testada em larga escala antes do atual ciclo regulatório. A POS CONTROLE foi responsável pela automação de vendas de alimentos e bebidas nas 17 arenas das Olimpíadas Rio 2016, operação que exigiu alta disponibilidade, processamento simultâneo de milhares de transações e estabilidade em ambientes de grande fluxo.
Durante a pandemia, com o fechamento do varejo físico, a receita foi impactada. A empresa optou por direcionar recursos ao desenvolvimento da plataforma, antecipando a retomada.
“O período foi desafiador, mas reforçou nossa convicção de que o varejo sairia mais digital, mais orientado a dados e mais pressionado por eficiência. Investimos em produto e voltamos ao mercado com uma solução aderente a essa nova realidade”, afirma Emerson.
Segundo a Mordor Intelligence, o mercado brasileiro de terminais POS estava estimado em cerca de US$ 6,45 bilhões em 2025 e deve chegar a aproximadamente US$ 6,84 bilhões em 2026, com crescimento projetado em torno de 6% ao ano e alcançando mais de US$ 9 bilhões até 2031.
E, assim, o mercado global de automação comercial e meios de pagamento segue crescendo, sustentado pela digitalização, pelo avanço da regulação fiscal e pela necessidade de eficiência operacional. “No Brasil, onde milhões de pequenos negócios dependem de soluções de baixo custo e alta mobilidade, o avanço de sistemas embarcados nas maquininhas aponta para uma nova etapa de maturidade tecnológica”, conclui Darzé.



















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