Para onde está indo o dinheiro: investidores começam a migrar para crédito empresarial fora dos bancos
- Fincatch

- há 3 horas
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Uma parte do dinheiro que tradicionalmente ficava concentrada em produtos clássicos de renda fixa, como CDBs, LCIs e LCAs, começa a buscar novos caminhos no sistema financeiro mundial.
Dados da LSEG Lipper, plataforma global de análise e classificação de fundos de investimento, mostram que investidores retiraram cerca de US$ 21,9 bilhões de fundos de ações dos Estados Unidos em uma semana após a escalada do conflito com o Irã.
Ao mesmo tempo, fundos de money market receberam US$ 30,7 bilhões em aportes, enquanto fundos de dívida de mercados emergentes registraram saídas de US$ 1,1 bilhão, refletindo uma postura mais defensiva dos investidores diante da volatilidade global.
No Brasil, as projeções para o sistema financeiro brasileiro indicam continuidade da expansão do crédito. Levantamento da Federação Brasileira de Bancos aponta que a carteira total de crédito no país deve crescer cerca de 8,2% em 2026, enquanto as operações voltadas às empresas podem avançar aproximadamente 11%.
A avaliação de analistas do setor é que, embora conflitos internacionais aumentem a volatilidade global e a cautela dos investidores, o impacto direto sobre a economia brasileira tende a ser mais limitado.
"Estudos de mercado indicam que o impacto direto no Brasil tende a ser menor porque o país é exportador de alimentos e commodities e não depende tanto da região em conflito. Mesmo assim, investidores costumam reagir com cautela, ou seja, mesmo com guerra, o financiamento produtivo continua crescendo", afirma Gabriel Sousa, CEO da M3 Lending, fintech que conecta investidores a operações de crédito para pequenas e médias empresas.
Desse modo, plataformas digitais de crédito empresarial, fundos estruturados e operações de crédito privado passaram a ganhar espaço no radar de investidores que procuram retorno elevado sem abrir mão de previsibilidade de fluxo. O que não representa necessariamente uma saída da renda fixa, mas uma mudança no formato da intermediação financeira.
Em vez de aplicar diretamente em títulos emitidos por bancos, cresce o interesse por estruturas que conectam investidores ao financiamento de empresas, principalmente pequenas e médias companhias que demandam capital de giro para manter ou expandir suas operações.
“A dúvida hoje não é se o investidor continuará buscando previsibilidade, mas onde ele a encontra com maior clareza de estrutura”, diz.
Segundo ele, parte dos recursos começa a migrar para operações estruturadas de crédito privado, fundos de recebíveis e plataformas digitais que conectam investidores diretamente à economia real.
“Isso significa que o dinheiro não sai necessariamente da lógica da renda previsível, ele apenas muda de formato. A lógica permanece conservadora, com taxa definida, prazo determinado e fluxo de pagamento contratado. O que muda é o intermediário e a forma como o risco é distribuído e analisado”, diz.
Em outras palavras, o investidor não está abandonando a busca por estabilidade, está redefinindo onde considera que essa estabilidade é mais sólida e transparente.
A realocação de recursos para estruturas fora do sistema bancário tradicional ocorre em paralelo ao avanço das fintechs de crédito no país. A Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2025, realizada pela PwC Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), mostra que as fintechs participantes do estudo concederam R$ 35,5 bilhões em crédito, crescimento de 68% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o estoque total de crédito do sistema financeiro brasileiro se aproxima de R$ 7 trilhões, segundo dados do Banco Central.
Embora o dado represente o volume de crédito liberado às empresas, ele também indica o aumento do capital de investidores direcionado a esse tipo de estrutura.
Na M3 Lending, plataforma que conecta investidores a operações de crédito empresarial, o volume movimentado chegou a mais de R$ 20 milhões em 2025, com operações realizadas para mais de 100 empresas. Para o primeiro semestre de 2026, a meta é direcionar R$ 12,5 milhões em novas operações.
A taxa média de cessão de crédito gira em torno de 3,2% ao mês e, segundo a empresa, os investidores alcançaram retorno médio de 35% ao ano no último exercício. A base ativa já ultrapassa 2 mil investidores, enquanto o faturamento da fintech alcançou R$ 3 milhões em 2025, com projeção de chegar a R$ 5 milhões em 2026.
Diferentemente da lógica tradicional de aplicações em títulos bancários, o modelo opera por meio da aquisição de direitos creditórios originados de pequenas e médias empresas.
Na prática, investidores participam de operações estruturadas de crédito de curto prazo, com taxa previamente definida e prazo determinado, dinâmica que se aproxima da renda fixa sob o ponto de vista da previsibilidade.
O retorno está ligado à capacidade de pagamento das empresas tomadoras, mas as operações passam por análise de crédito, estruturação contratual e, em muitos casos, contam com garantias associadas aos recebíveis.
“O investidor quer clareza sobre onde o dinheiro está aplicado e qual é a estrutura da operação. Quando falamos de crédito estruturado, falamos de previsibilidade de fluxo e taxa definida desde o início”, afirma Sousa.
Segundo ele, a rentabilidade observada nas operações está relacionada a financiamentos de giro empresarial de curto prazo. “É capital direcionado para negócios que precisam financiar estoque, produção ou expansão. O investidor participa dessa dinâmica produtiva com taxa contratada e horizonte claro”, diz.
Demanda por crédito deve crescer em 2026
O ambiente macroeconômico também tende a impulsionar esse tipo de operação. O calendário eleitoral e a realização da Copa do Mundo são dois fatores que tradicionalmente aumentam o ritmo da atividade econômica.
"Eventos dessa magnitude costumam estimular consumo e serviços em diversos setores, ampliando a demanda por capital de giro em áreas como comércio, turismo, alimentos, vestuário, publicidade e serviços ligados a campanhas. Em anos eleitorais, o investimento tende a migrar para operações mais curtas e com maior liquidez. A velocidade do capital aumenta”, afirma Sousa.
Segundo ele, esse movimento reduz períodos de ociosidade na economia e amplia a necessidade de funding rápido para empresas. “Essa dinâmica intensifica a busca por crédito de curto prazo. E plataformas digitais conseguem operar com mais flexibilidade nesse tipo de financiamento”, diz.
Projeções do Banco Central indicam que o estoque de crédito no Brasil deve crescer cerca de 8% em 2026, com avanço tanto no crédito para famílias quanto para empresas. No segmento corporativo, estimativas do setor bancário apontam expansão próxima de 11%, por conta da demanda por financiamento produtivo e capital de giro.
Com taxas de inadimplência próximas de 4% nas operações da M3, segundo a empresa, o modelo começa a consolidar reputação entre investidores interessados em diversificar parte da carteira fora do eixo bancário tradicional.
“Investimento em crédito estruturado, quando feito com critério e transparência, pode oferecer uma combinação interessante de retorno e previsibilidade”, afirma Sousa.
Para o executivo, o cenário indica uma reorganização gradual na forma como o capital é distribuído no mercado financeiro. “O investidor continua buscando retorno, mas com mais atenção à estrutura das operações e à origem do fluxo financeiro. Desse modo, o crédito privado estruturado passa a ganhar espaço como alternativa dentro das carteiras”, resume.



















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